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sexta-feira, 26 de março de 2010

Entrevista com o líder do PCC, Marcola, ao jornal O Globo.




Leia a interessante entrevista com o líder do 

PCC, Marcola, ao jornal O Globo.






A entrevista foi extraída do infame blog 


Segue abaixo a entrevista:


Jornal: O GLOBO








Editoria: Segundo Caderno







Edição: 1, Página: 8

23/05/2006


Estamos todos no inferno. Não há solução, pois 

não conhecemos nem o problema.


O GLOBO: Você é do PCC?



- Mais que isso, eu sou um sinal de novos 


tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca 


me olharam durante décadas… E antigamente 


era mole resolver o problema da miséria… O 


diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível 


de renda, poucas favelas, ralas periferias… A 


solução é que nunca vinha… Que fizeram? 


Nada. O governo federal alguma vez alocou 


uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos 


desabamentos no morro ou nas músicas 


românticas sobre a “beleza dos morros ao 


amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos 


ricos com a multinacional do pó. E vocês estão 


morrendo de medo… Nós somos o início tardio 


de vossa consciência social… Viu? Sou culto… 


Leio Dante na prisão…




O GLOBO: – Mas… a solução seria…




- Solução? Não há mais solução, cara… A 


própria idéia de “solução” já é um erro. Já 


olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já 


andou de helicóptero por cima da periferia de 


São Paulo? Solução como? Só viria com muitos 


bilhões de dólares gastos organizadamente, com 


um governante de alto nível, uma imensa 


vontade política, crescimento econômico, 


revolução na educação, urbanização geral; e 


tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma 


“tirania esclarecida”, que pulasse por cima da 


paralisia burocrática secular, que passasse por 


cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha 


que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, 


vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que 


impede punições. Teria de haver uma reforma 


radical do processo penal do país, teria de 


haver comunicação e inteligência entre polícias 


municipais, estaduais e federais (nós fazemos 


até conference calls entre presídios…). E tudo 


isso custaria bilhões de dólares e implicaria 


numa mudança psicossocial profunda na 


estrutura política do país. Ou seja: é impossível. 


Não há solução.




O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?




- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. 


Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e 


me matar… mas eu posso mandar matar vocês 


lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela 


tem cem mil homens-bomba… Estamos no 


centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e 


eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a 


única fronteira. Já somos uma outra espécie, já 


somos outros bichos, diferentes de vocês. A 


morte para vocês é um drama cristão numa 


cama, no ataque do coração… A morte para 


nós é o presunto diário, desovado numa vala… 


Vocês intelectuais não falavam em luta de 


classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: 


chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca 


esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou 


inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… 


mas meus soldados todos são estranhas 


anomalias do desenvolvimento torto desse país. 


Não há mais proletários, ou infelizes ou 


explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí 


fora, cultivado na lama, se educando no 


absoluto analfabetismo, se diplomando nas 


cadeias, como um monstro Alien escondido nas 


brechas da cidade. Já surgiu uma nova 


linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas 


“com autorização da Justiça”? Pois é. É outra 


língua. Estamos diante de uma espécie de pós-


miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova 


cultura assassina, ajudada pela tecnologia, 


satélites, celulares, internet, armas modernas. É 


a merda com chips, com megabytes. Meus 


comandados são uma mutação da espécie social, 


são fungos de um grande erro sujo.




O GLOBO: – O que mudou nas periferias?




- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem 


tem US$40 milhões como o Beira-Mar não 


manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, 


um escritório… Qual a polícia que vai queimar 


essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma 


empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é 


despedido e jogado no “microondas”… ha, 


ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado 


por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de 


gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós 


lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra 


estranha. Nós não tememos a morte. Vocês 


morrem de medo. Nós somos bem armados. 


Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. 


Vocês, na defesa. Vocês têm mania de 


humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. 


Vocês nos transformam em superstars do 


crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós 


somos ajudados pela população das favelas, por 


medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês 


são regionais, provincianos. Nossas armas e 


produto vêm de fora, somos globais. Nós não 


esquecemos de vocês, são nossos fregueses. 


Vocês nos esquecem assim que passa o surto de 


violência.




O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?




- Vou dar um toque, mesmo contra mim. 


Peguem os barões do pó! Tem deputado, 


senador, tem generais, tem até ex-presidentes 


do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. 


Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que 


grana? Não tem dinheiro nem para o rancho 


dos recrutas… O país está quebrado, 


sustentando um Estado morto a juros de 20% 


ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos 


públicos, empregando 40 mil picaretas. O 


Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou 


lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há 


perspectiva de êxito… Nós somos formigas 


devoradoras, escondidas nas brechas… A gente 


já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, 


vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a 


gente, só jogando bomba atômica nas favelas… 


Aliás, a gente acaba arranjando também 


“umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já 


pensou? Ipanema radioativa?




O GLOBO: – Mas… não haveria solução?




- Vocês só podem chegar a algum sucesso se 


desistirem de defender a “normalidade”. Não 


há mais normalidade alguma. Vocês precisam 


fazer uma autocrítica da própria 


incompetência. Mas vou ser franco…na boa… 


na moral… Estamos todos no centro do 


Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… 


não têm saída. Só a merda. E nós já 


trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não 


há solução. Sabem por quê? Porque vocês não 


entendem nem a extensão do problema. Como 


escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna 


speranza voi cheentrate!” Percam todas as 


esperanças. Estamos todos no inferno.



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